domingo, 30 de outubro de 2011

VOO ENJOADO




Fiquei cuidando os passageiros que entravam pelo corredor do avião. Estava tentando adivinhar quais deles seriam meus companheiros de poltrona. Sentado no meio, seria inevitável eu me somar à tradicional bagunça de passageiros, procurando por espaço para suas bagagens nos compartimentos superiores. As viagens não mudam: malas que deveriam ter sido despachadas brigando com pernas e cabeças de senhores e senhoras. Uma disputa e pressa burras, pois ninguém vai partir nem chegar antes dos outros. Mas as pessoas ainda não se dão conta disto.
A loirosa passou direto, que pena! Só me resta esse gordo de camisa vermelha vir sentar ao meu lado. Eu não mereço pagar pelos meus pecados justamente hoje. A malinha dele não vai caber no espaço exíguo acima de nossas cabeças. Ufa, passou também.  Essas poltronas já são pequenas para mim, imagina esse gordo roncando do meu lado. Aquele sebo escorregando na cara dele deve ser de medo. Além do tamanho todo, deve ter pavor de avião. O piloto vai ter que equilibrar as asas para não pender pro lado em que ele estiver sentado.
Afastado o perigo do obeso, percebi que qualquer companhia na viagem já seria um lucro. Foi quando vi a mocinha falando ao celular, procurando pelo numero da poltrona. Todos estavam sabendo que ela iria encontrar o namorado em Manaus. Ela deixara bem claro na conversa pública desde a sala de embarque. Não deu outra, era ela. Jogou a mochila na poltrona do corredor, acenou para alguém no fundo, tirou um dos fones do ouvido, ajeitou o chiclete no lado direito da boca e descascou:
- O senhor se importa de trocar de poltrona com a minha amiga? Nós estamos viajando juntas e ficamos em filas separadas – explica a garota de cabelos ruivos, já acenando para a tal amiga.
            - Em qual a poltrona ela está? – perguntei já apertando o meu cinto.
            - Acho que é na fila dezesseis. No corredor – completou, tentando me animar, quando percebeu que o meu gesto de apertar o cinto era de não sair dali.
            - Me importo sim. Não quero trocar.
            - Valeu, tio, muita gentileza da sua parte.
            Vi o deboche na cara da garota. Não podia deixar assim:
            - De nada. A propósito, não tenho sobrinha dessa idade – respondi provocando.
            O chiclete dançou nervoso e estaqueou naquela boca irritada:
            - Tomara que não tenha de idade nenhuma.
            - Se for sentar ao meu lado de mau humor, acho que prefiro trocar de lugar.
            - Vou avisar minha amiga - falou saltando da poltrona.
- Peraí, mocinha – respondi – eu disse que acho que prefiro trocar. Não disse que iria trocar. Ou melhor, pensando bem, não vou trocar.
A moça ficou vermelha. Confesso que me arrependi um pouco quando ela sentou com toda elegância de uma elefanta, apertando o cinto e rançou ao meu lado:
- Essa viagem vai ser um saco.
Pelo menos eu já me diverti. Esperei um pouco e acionei o botão chamando a comissária de bordo. Quando ela chegou, muito atenciosa, eu deixei a mocinha mais preocupada:
- Por favor, eu não encontrei aqui os saquinhos, aqueles de plástico. É que eu enjoo muito, sabe, durante o voo. Acho que vou precisar deles por precaução. A senhorita poderia me arrumar alguns?

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segunda-feira, 20 de junho de 2011

NA PELE DOS DEDOS


Do impecável uniforme quase não se via o gingado da saia. Com retidão no caminhar, braços prendendo firme ao peito os livros e cadernos, cruzava os corredores do colégio e as alas do internato. Cedo chegava na capela para as orações. Acendia as velas e distribuía pelos bancos os livros de cânticos.
Aluna do ginásio, mantinha a atenção nas aulas de matemática, latim, francês e inglês. Redobrava esforços nas aulas de artes. Não tinha habilidades para o desenho, mas  o lápis virava parceiro  obedecendo outras ordens de mãos ansiosas. Estas mesmas mãos que se juntavam em orações aflitas, os olhos azulados, fixos no Sagrado Coração.
Aguentava firme o jejum das últimas sextas-feiras do mês. Doze horas para a purificação, merecendo receber o corpo do Senhor, consagrado. Resistia ao terrível enjoo das velas, do incenso e das flores em águas não trocadas. O véu branco sobre a cabeça e a reverência às freiras, por de baixo de olhos tímidos, não demonstravam as aflições por perdão e redenção de pecados.
Que tanta penitência carecia aquela alma clara?, indagavam-se as religiosas. Não conseguiam ver, naquele corpo de curvas escondidas, os pecados que afligiam as suas próprias cabeças.
Mas a ginasiana, esfolando os joelhos na madeira do banco, quando juntava as mãos frente ao rosto, fechando os olhos, diante do Cristo despido, sentia ainda o aroma de suas mais íntimas secreções. Na pele dos dedos, por baixo das unhas.


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

AFOGADOS



sussura o vento, zunindo d'alma

a calma que transfixa os versos

os verbos os grunhidos mortos

submersos, submersos

a tona liberta o grito

delirante, alucinado, proscrito

afagado da dor sem sorte

a morte dilacera o rito



aura de luz violacea

sangra a aurora o crepúsculo

inerte o brado que fere o músculo

sufocados ventos dissonantes

dos gritos delirantes abafados

das babas, gosmentas, dos afogados

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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

autógrafos

oito de dezembro. 2010. início de noite na Rossi Fiateci - Quarto Distrito - Porto Alegre. Noite de autógrafos do livro Conto a Céu Aberto. Dez contos selecionados por concurso juntos com os contos do escritor Fabrício Carpinejar. Entre os dez selecionados a minha pequena história já publicada neste Blog: Dois Barcos no Meu Rio. deixo algumas fotos

domingo, 15 de agosto de 2010

A MORTE

Dizem que o homem é o único animal que sabe da finitude da vida. Sabe das universais experiências de nascer e de morrer. Nascer que extrapola nossa capacidade de memória e acaba sendo experiência maior de nossos pais. Mas morrer nos faz passar a vida inteira ocupando esse espaço de tempo sendo férteis em imaginação para crermos que não vamos morrer, pelo menos não tão cedo. E nesse período acabamos criando mais vidas que prolongam as nossas.


É na morte dos outros que nos aproximamos da nossa própria morte. De tudo que fica por ser feito, de acreditar que as coisas não possam funcionar na nossa ausência, na mudança dos destinos dos que nos cercam - que na realidade nunca nos pertenceu. Na vida não há certificados de propriedade.

Dizem que os porcos também teriam a certeza dos dias contados. E a resignação comovente do gado na linha do abate? Segue reto, calmo, sem resistência no caminho da morte. Seriam mais felizes, talvez, os outros animais?

Resistência talvez seja a palavra chave. O querer permanecer, querer ir mais, querer ver, existir, não perder o espetáculo e continuar comandando o espetáculo. E é essa resistência que cria e constrói também a medicina. A luta pela saúde, conseqüentemente pela vida, sobrevida, pelo tempo. E é na morte que começamos nossa luta pela vida. Na dureza fria do cadáver na sala de anatomia, no corpo de um ser humano que não conhecemos, que teve sua história, seu fim. Não sabemos de onde veio, se chegou a amar alguém ou ser amado, quem deixou, quem o maltratou ou marginalizou. Não sabemos nada. Dissecamos músculos, vasos, nervos, vísceras. Aprendemos.

A morte cruza pela nossa vida de médicos. Talvez mais presentemente, talvez menos. E vivemos acompanhando a nossa luta e a dos pacientes. Quem sabe ficamos mais frios, nos protegemos, mas de vez em quando ela vem e mostra a cara. Às vezes se mostra bem viva, esperançosa, carente de uma palavra. Mas nem sempre temos a boa palavra.

- Quanto tempo eu tenho de vida, doutor?

Que pergunta cruel, pensei naquela hora. O transdutor convexo que eu deslizava na pele daquele abdômen transmitia, em ondas ultrassônicas, a imagem de um fígado completamente metastático no monitor, várias linfonodomegalias no retroperitônio e líquido livre.

- Doutor, eu sei que tenho pouco tempo de vida, eu sei que vou morrer, mas tenho que organizar minha vida. Eu tenho um filho excepcional que depende de mim. Eu quero deixar tudo organizado. Eu já tenho deficiências neurológicas. O meu médico acha que já tenho o cérebro comprometido. Eu tenho um ano? Seis meses? Quanto?

E eu tenho que responder isto? Pensei na hora.

Mas respondi como sempre procurei agir na maioria das vezes que pensei na morte, que cruzei com ela, que a vi, que a cheirei, que a senti, que a refleti:

- Faça como se fosse amanhã seu ultimo dia.

Texto publicado na antologia Histórias e estórias médicas da Unimed Porto Alegre


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sábado, 31 de julho de 2010

DOIS BARCOS NO MEU RIO

     Vejo dois barcos que vem ao longe. Pequenos, deslizam em águas tranquilas. O maior deles, mais colorido, vem tímido. Na proa traz uma carranca assustadora, mas é uma embarcação que flutua leve na água. Não se abala por tormentas ou corredeiras. Navega com tranquilidade e sabedoria desviando obstáculos, conhecendo os caminhos do rio. Sabe calcular a velocidade das águas e onde atracar.

     O menor vem seguindo as rotas do irmão. Traz cores alegres e desenhos enigmáticos de dragões a bombordo e estibordo. Cruza o rio com alegria apesar do medo de águas turbulentas. Dos areais passa longe na liberdade que as barrancas permitem. Sabe ler a lua e as estrelas.

     Eu sou uma pedra neste rio. Estes barcos são tão próximos que os sinto muito meus. Os reconheço de longe quando vem crescendo nos meus olhos. Chegam faceiros, brincam e atracam no remanso. Sou o ponto seguro onde agora podem amarrar suas cordas. Sei que vão partir, seguir e voltar nos rumos do rio, quem sabe encontrar o mar. Agora só me resta ler seus nomes desenhados no casco: João e Joaquim.

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